Sai da frente que aí vem o pastor!
Senti na pele três horas da rotina de um pastor. Toda aquela
pompa, se é que se pode falar assim, do respeito e consideração do povo
desaparece depois que o culto se acaba. Os crentes vão para seus lares abençoados
e felizes aguardando se reencontrarem no outro culto para adorar e glorificar a
Jesus Cristo. Para o pastor, bem, começa outra jornada de conselho, oração,
e... de resgate. Sim, às vezes quando ele pensa que vai tirar uma soneca, o
celular toca: "Pastor, eu estou a quinze quilômetros depois de Jacinópolis, na
estrada do Parque... Preciso do senhor aqui, agora". E lá vai o seu pastor,
sozinho, na escuridão da estrada deserta, às vezes sem nem imaginar o que o aguarda
na chegada. Por isso antes da murmuração, vale uma oração por ele... Depois...
Bem, daí é com Deus.
O PRESBÍTERO E O UNO
O PRESBÍTERO E O UNO
Meu pai foi designado para cooperar com os irmãos no Marco 16, local
situado na zona rural do município. E lá o carro dele, um Uno, resolveu pregar
mais uma de suas peças e não quis pegar, nem com oração ungida no monte. (Estou vendo que esse Uno ainda vai ganhar o prêmio de maior "pregador de Buritis", desbancando até mesmo o Wesley Soares, porque pensa num carrinho que prega nas oficinas, prega nas chácaras, sítios e fazenda, prega nas ruas e avenidas de nossa cidade, onde ele vai com o meu pai, chega lá a unera prega e não sai do lugar. Parece burro empacador). Resultado:
Pai liga pra nós, pra nós ligarmos pro pastor, pro pastor enviar socorro. Nós
ligamos. O pastor tem a solução. O pastor
responde a nós pedindo para nós ligarmos para o pai avisando que se o Uno
rebelde, não pegasse era pra ele ligar de novo para nós... Arre! Resumindo: O
uno não pegou. Estava desviado mesmo!
O PLANO DO PASTOR
O PLANO DO PASTOR
- Pastor, alguém terá que buscar o homem.
- Tudo bem, meu irmão. Nós vamos buscá-lo.
Aquele “nós vamos buscá-lo” me assustou. Como assim nós “nós
vamos buscá-lo”? Eu, heim. No meu plano de socorro, minha participação no
resgate do presbítero terminava no “Pastor, alguém terá que buscar o homem”.
Descobri que, mesmo quando você não conta com o pastor, ele conta com você. Eu sei da fama do pastor que quem viaja com
ele tem que estar com as obrigações com Deus em dia, porque se até os anjos
saem da frente quando ele dirige, que dirá de homens, demônios, unicórnios... E
ficou mais evidente minha participação quando o pastor Eli disse:
- Daqui uns minutinhos passo aí na sua casa para pegar o
irmão. Nós vamos arrastar o Uno.
E agora, como que escapo do pastor? E ainda arrastaríamos
o outro carro. Complicou. Pensei comigo: “Duvido o velho deixar a gente amarrar
umas cordas naquela unera”. Mas lá veremos quem é mais marrento: se o pastor ou
o presbítero.
Pensei, matutei... E nisso que eu estava pensando,
matutando, a caminhonete buzina na porta da minha casa.
“Santo Pai, esse
pastor não dá tempo nem da gente pensar direito”.
-S’imbora, irmão Marcos!
Quase 22 horas. Com a cara e o medo, embarquei. E levei
junto o meu piá Felipe.
Chovera durante a tarde e entrada da noite. Por isso a
estrada estava lisa que nem quiabo. Os motociclistas iam devagar sobre suas motos,
apoiando com os dois pés no chão para não deitarem na lama.
O MOTOQUEIRO
Entramos no Marco 16. Estradinha estreita e ruim. Depois de
um bom trecho, encontramos um motoqueiro que vinha na direção contrária. O pastor
parou o carro e perguntou a ele se estávamos distante da igreja Assembléia. O
rapaz, meio assustado, pois já eram mais de 23 horas, parou, pensou, pensou (
acho que calculando cada metro e centímetro até a igreja) e respondeu:
- Ahh, ela deve estar a três quilômetros daqui. Depois
que passar a pontinha, bem no altinho ela deve estar lá.
“Tomara que esteja lá mesmo, só falta agora a igreja
ficar mudando de lugar”... pensei. Nisso vinha subindo um uno carregado de
gente. O pastor gentilmente cumprimentou o motorista:
- Boa noite, cidadão!
O cidadão respondeu:
- E aí, doido!
Caí na risada, em espírito, é claro nem. Porque se eu risse na carne talvez
o Eli Batista ficasse sem graça...
A CASA
Seguimos adiante. O pastor ia listando: Aqui mora o irmão
Fulano; aqui é o sítio da irmã Sicrana; ali é do irmão Beltrano... Mais adiante, depois de subir e descer umas ladeiras, ele disse:
-Pelas minhas contas, é aqui, irmão Marcos.
Desci. A porteira abri e entramos. Tudo fechado. Escuro. Nem
sinal de Uno encrencado. Se tinha alguém na casa, esse alguém se escondeu,
talvez morrendo de medo. Pois não é toda noite que uma caminhonete invade seu
quintal com luz alta. Ainda mais nesse período turbulento em que a polícia faz vôos rasantes
na capturas dos meliantes fugitivos.
Não era a casa do irmão Dival. As contas do pastor e do
motoqueiro assustado estavam erradas.
Tivemos sorte ou livramento divino de que alguém assombrado por nossa aparição beirando a meia-noite não nos recebesse com uma 12 de repetição! Ufa!
A CASA (agora a verdadeira)
Aí subimos e descemos mais uma ladeira e pah! A porteira. Um carreador ladeado por árvores e arbustos e lá no fundo uma casa. E iluminado por um pouco de luz que saía da casa... Tcharãrã: O Uno.
- Pastor, é aqui!
Abri a porteira. Entramos. O irmão Dival e a irmã esposa dele que eu esqueci o nome agora, nos recebeu muito bem, apesar de ser meia noite. Nos ofereceu café e janta. O pastor não jantou porque ia dirigir, mas comeu uns pedacinhos do frango caipira que era pra mode de não fazer desfeita no casal de irmãos tão abençoados.
Agora era tentar fazer o carro pegar. Nada fez a bênção funcionar. Mesmo contra as objeções do Presbítero, amarramos umas cordas que o pastor trouxera o demos uns três trancos na máquina. Nada.
Quando o pastor disse que iríamos rebocar o Uno no laço até Buritis, meu pai saltou fora.
-Não. Pode deixar ele aí. Amanhã venho aqui com um mecânico e consertamos. O pastor tentou demovê-lo da ideia, mas não teve jeito. O Uno ficou na casa do irmão Dival mesmo.
-Então, irmão Marcos, desamarra a corda.
Aí, eu não vigiei, e havia dado um nó-cego duplo na corda. E quem disse que eu conseguia soltá-la da unera! Por duas vezes o pastor ofereceu um canivete para cortá-la, ao ver meu sofrimento.
- Não, pastor. eu dou conta de desamarrar isso.
Ajoelhei, deitei e rolei, mas nada. Por resto, resolvi aceitar o canivete. Eu não sabia que o pastor carregava um canivete e que ele fosse tão afiado!
A VOLTA
A volta foi mais rápida (Coitadinho de nós. Acho que o pai nunca mais pede pro pastor ir socorrê-lo).
Viemos dissertando sobre pecado, predestinação, bicicletas, farofas... E em cada ponte na estrada, o presbítero se agarrava a poltrona do carro e freava só no psicológico... E o pastor rindo, ia voando. Felipe, coitado, que durante todo episódio segurava a lanterna, estava pronto para devolver a janta. E eu torcendo pra chegar logo em casa porque não tinha nada a ver com aquilo.
por: Marcos Rodrigues
Tivemos sorte ou livramento divino de que alguém assombrado por nossa aparição beirando a meia-noite não nos recebesse com uma 12 de repetição! Ufa!
A CASA (agora a verdadeira)
Aí subimos e descemos mais uma ladeira e pah! A porteira. Um carreador ladeado por árvores e arbustos e lá no fundo uma casa. E iluminado por um pouco de luz que saía da casa... Tcharãrã: O Uno.
- Pastor, é aqui!
Abri a porteira. Entramos. O irmão Dival e a irmã esposa dele que eu esqueci o nome agora, nos recebeu muito bem, apesar de ser meia noite. Nos ofereceu café e janta. O pastor não jantou porque ia dirigir, mas comeu uns pedacinhos do frango caipira que era pra mode de não fazer desfeita no casal de irmãos tão abençoados.
Agora era tentar fazer o carro pegar. Nada fez a bênção funcionar. Mesmo contra as objeções do Presbítero, amarramos umas cordas que o pastor trouxera o demos uns três trancos na máquina. Nada.
Quando o pastor disse que iríamos rebocar o Uno no laço até Buritis, meu pai saltou fora.
-Não. Pode deixar ele aí. Amanhã venho aqui com um mecânico e consertamos. O pastor tentou demovê-lo da ideia, mas não teve jeito. O Uno ficou na casa do irmão Dival mesmo.
-Então, irmão Marcos, desamarra a corda.
Aí, eu não vigiei, e havia dado um nó-cego duplo na corda. E quem disse que eu conseguia soltá-la da unera! Por duas vezes o pastor ofereceu um canivete para cortá-la, ao ver meu sofrimento.
- Não, pastor. eu dou conta de desamarrar isso.
Ajoelhei, deitei e rolei, mas nada. Por resto, resolvi aceitar o canivete. Eu não sabia que o pastor carregava um canivete e que ele fosse tão afiado!
A VOLTA
A volta foi mais rápida (Coitadinho de nós. Acho que o pai nunca mais pede pro pastor ir socorrê-lo).
Viemos dissertando sobre pecado, predestinação, bicicletas, farofas... E em cada ponte na estrada, o presbítero se agarrava a poltrona do carro e freava só no psicológico... E o pastor rindo, ia voando. Felipe, coitado, que durante todo episódio segurava a lanterna, estava pronto para devolver a janta. E eu torcendo pra chegar logo em casa porque não tinha nada a ver com aquilo.
por: Marcos Rodrigues
Sai da frente que aí vem o pastor!
Reviewed by Conexão Imagens
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maio 21, 2016
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